quarta-feira, 12 de agosto de 2015

WATERFRONT E CAMPS BAY

Sábado é quase obrigatório fazer programa de turista, né? Nossos amigos britânicos tinham deixado o campus na sexta-feira, e alugado uma casa em Camps Bay para o fim de semana. Como bons amigos que são, convidaram e eu mais alguns para jantar com eles no sábado à noite.
No sábado de manhã, então, eu e Tina (uma das minhas roomates, alemã) fomos passear no famoso Waterfront, almoçar lá... com plano de assistir o pôr do sol na casa dos guris (que era uma casarão com vista pro mar).

Sobre o Waterfront: cinematográfico. Um lugar pra gente se sentir leve, dar risada, sentir a maresia... pra mim e pra Tina foi o momento de suspirar e fazer juras de amor à Capetown. 




Depois de passear, almoçamos e fomos olhar lojinhas e comprar souvenirs. Foi muito legal perceber que a gente já se sente meio local agora, e que olha os preços das coisas e comenta que em tal lugar é mais barato, ou que esse valor é "pra turista", hehe. Finalmente nos demos conta de que não lembrávamos em qual estacionamento tínhamos deixado o carro. E o Waterfront é ENORME. Foi uma aventura, mas logo achamos o nosso bendito clio prata. E seguimos para Camps Bay - levemente atrasadas, porque mulheres e shoppings são uma combinação potencialmente perigosa.
Como percebemos que não iamos chegar a tempo na casa dos guris, resolvemos assistir o pôr do sol na estrada. E foi, com certeza, a melhor coisa que a gente podia ter feito. Fomos rodando pela estrada montanhosa, paramos em 3 lugares diferentes pra sessão de fotos... muito bom! 



É, eu sei. Incrível. 

Depois de tudo isso, nos perdemos um pouco pra chegar na casa dos guris, porque uma das principais ruas estava bloqueada pra obras... mas chegamos. Foi uma noite muito relax, num casarão confortável, com amigos, pizza e muita risada. Não dá pra pedir mais.

SEGUNDA SEMANA NA HOPE

Bom, minha segunda semana na HOPE foi mais ou menos parecida com a primeira. 

Não consigo lembrar exatamente o que eu fiz na segunda-feira =x Até porque foi 2 semanas atrás e aqui acontece tanta coisa todos os dias que fica difícil lembrar de tudo.
Na terça-feira, fui novamente pro round com os pediatras do hospital pra discutir os casos complicados. Após, fomos pro ambulatório pediátrico de HIV. Nada de muito diferente da semana anterior.
Na quarta-feira, fui pro Brooklyn Chest Hospital, com um dos experts em tuberculose. Pra ajudar na imaginação, o BCH é extremamente parecido com o Sanatório Partenon. A estrutura e até mesmo o tipo de paciente. O BCH é um hospital exclusivo para tratamento de tuberculose resistente. Pra quem não sabe, esse é um dos maiores problemas da tuberculose por aqui. O Mycobacterium tuberculosis pode desenvolver resistência com facilidade, sofrer mutações e não mais ser eliminado pelas medicações tradicionais (conhecidas como RHZE). Uma das maiores causas das mutações é a má adesão ao tratamento. Por que? O tratamento tradicional deve ser usado por 6 meses para realmente eliminar a doença. E se você já esquece dose usando 10 dias de antibiótico pra uma sinusite, imagina tomar remédio todo dia durante 6 meses - não é nada fácil. Mas ao falhar doses, a gente acaba selecionando os "bichinhos" mais fortes, e aí não vai mais ser o famoso RHZE que vai resolver. Serão necessárias mais (e diferentes) medicações, por um tempo prolongado. A chance de não responder ao tratamento é ainda maior, causando sequelas cada vez maiores e até mesmo levando à morte. Ou seja, não é brincadeira. Existem dois principais tipos de tuberculose resistente: a MDR-TB (multidrug-resistant TB) e a XDR-TB (extensively drug-resistant TB), como o nome diz, a segunda forma é muito pior e exige ainda mais medicações, por mais tempo ainda, com sequelas muito piores e a cura é bem difícil. A gente não ouve falar tanto disso no Brasil porque AINDA não é um problema significativo pra nós. Temos um bom programa de tuberculose (agradeçam, sim, ao SUS) e isso nos dá uma certa segurança. Mas ao contrário do que muita gente pensa, temos, sim, muita tuberculose. E cada vez que alguém não se trata corretamente está aumentando a chance de termos mais esse sério problema de saúde. No Brasil temos muito estigma sobre TB: muita gente não procura atendimento médico mesmo sabendo que pode ser tuberculose (porque teve contato com alguém ou porque tem todos os sintomas clássicos) porque TB é coisa de presidiário e favelado. E esse tipo de coisa traz grande impacto na saúde pública. Por isso, se tosse> 6 semanas, suador noturno, perda de peso inexplicada, febre ou qualquer outra coisa fora do comum - procurem um médico.
Peço desculpas por me estender sobre tuberculose. Mas é uma coisa bem séria. E acho que conhecimento nunca é demais.


Na quinta-feira, fui junto com a enfermeira Pauline até o distrito de Mfuleni. Eles tem um posto de saúde lá que atende crianças em geral, pré-natal, e adultos com HIV ou TB. Passei a manhã toda lá e pude ver um monte de TB resistente e a forma como eles manejam os pacientes. Bem interessante. Eles fazem as primeiras semanas de tratamento conforme a estratégia DOTS da OMS - DOTS é basicamente o paciente ir todo o dia na clínica/postinho e tomar a medicação na frente da enfermeira. Após as primeiras semanas, eles são liberados pra tomar em casa e vir em intervalos maiores pra revisão. Esse método é inviável pra ser feito com todos os pacientes e por todos os 6 meses de tratamento, por motivos óbvios. Mas tem muitas novas estratégias e novas tecnologias vindo por aí, como eu iria descobrir na outra semana quando começasse o estágio na KID-CRU. Nesse mesmo dia também acompanhei o manejo dos pacientes recém diagnosticados com HIV e pude entender o protocolo deles na prática. Novamente, nada muito diferente da nossa realidade.
Na sexta-feira, fui novamente para o distrito de Delft, para atendimento de crianças com HIV. Foi uma manhã bem longa (chegamos as 07h30 e encerramos as 14h), mas extremamente proveitosa. 

Assim terminou meu estágio na HOPE.. com a sensação de que podia ficar anos e anos fazendo isso!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

DO DIA QUE PARECEU UMA SEMANA INTEIRA

Bem atrasado, mas vamos lá. No sábado (25/07), fomos fazer um tour pelas praias até chegar na pontinha, o famoso Cape of Good Hope (Cabo da Boa Esperança, no bom e velho português). Foi um dia cansativo (quase tanto quanto chegar ao topo da Table Mountain), mas conseguimos conhecer vários lugares lindos - e tirar 2378374826129 fotos - num dia só.
Segue nosso roteiro:

1. Muizenberg:


Um "subúrbio à beira-mar" da Cidade do Cabo. Sendo bem sincera, se olhar pra cidade, parece Imbé. Tirando a beira da praia que é maravilhosa, o mar que é limpo e tem ondas de verdade, e os tubarões, claro. No mais, a cidade tem o jeitinho do nosso litoral. Deu até vontade de comer crepe! 


2. Kalk Bay

Kalk Bay é uma vila de pescadores, com todo o charme e poesia possível. Aquela cidadezinha no litoral que aparece nos filmes de sessão da tarde, em que a menina vai fugir de um marido psicopata ou de uma carreira estressante ou qualquer outra coisa do tipo, e acaba se apaixonando por um pescador local. Kalk bay é minúscula, mas com certeza vale a parada pra apreciar.



3. Boulder Beach


Também conhecido como "santuário dos pinguins", Boulder Beach é o lugar pra ficar histérico se você é daqueles que compra tudo de pinguim que vê pela frente (oi, mãe!). Mas, ao mesmo tempo, não é só sobre pinguins. A praia em si é maravilhosa. E cercada de casarões incríveis. Minha impressão após conhecer é "achei um bom lugar pra morrer" - praia linda, uma mansão e pinguins no quintal... parece suficiente pra mim.
Diz pra mim que não dá pra morrer num lugar desses?
Dassies - esse é o nome em Afrikaaner desses fofinhos aí. São roedores tipicamente africanos.

Aparentemente não é permitido levar os pinguins pra casa.

video

4. Cape Point/ Cape of Good Hope

Cape Point e o Cape of Good Hope ficam no mesmo lugar, dentro dessa reserva imensa. O custo da entrada é algo tipo R120 (o que dá uns 40 reais), mas se você é do tipo que acha esse valor absurdo, nem merece ter acesso a esse lugar. Pra ter uma ideia do tamanho, eles possuem um pacote de trilha de DOIS dias, pra conhecer de pertinho toda a fauna e flora do parque. Obviamente não fizemos essa trilha e fomos pros lugares mais famosos.


Óin que bonitinho o babuíno. NÃO. Babuínos são extremamente agressivos. Quase fomos atacados por um no estacionamento - eles são vários e andam no meio dos humanos tranquilamente, até que do nada começam a correr na tua direção e aí é aquele salve-se quem puder. Mas ok, essa mãe e filho são bem fofinhos.



Foto panorâmica pra tentar dar uma noção da imensidão. Dá pra gente realmente sentir como somos um nada no meio do mundo.
Cabo da Boa Esperança - o ponto mais sudoeste do continente africano (e aquele que a gente aprendeu mil vezes nas aulas de história e geografia)

Não tem muito o que dizer de Cape Point e Cape of Good Hope. São lugares incríveis, com vista incrível. Vale cada segundo.

5. Ostrich Farm
Por último, mas não menos importante, almoço. Saímos da reserva e estávamos exaustos e famintos. E uma das gurias queria muito ver a fazenda de avestruz, que ficava a apenas alguns metros da saída do parque. Na entrada, vários avestruzes bonitinhos olhando pro nada. Resolvemos passar rápido por eles e primeiro comer algo, pra depois olhar os bichinhos. O restaurante dentro da fazenda é todo temático (as porções vem em cerâmicas no formato de avestruz, com pinturas e etc, haha), e a dona do restaurante é uma simpatia só "Please don't tell the animals that we eat them here" (por favor, não contem pros animais que a gente os come aqui). Enquanto esperávamos pela comida, ganhamos um livro com mil curiosidades sobre estes animais ("um ovo de avestruz demora até 2h pra ser fervido"). Pedimos um dos famosos Ostrich Burgers. Uma delícia. Depois de estar com a barriga cheia, sentimos ainda mais o cansaço e acabamos só passando pelos avestruzes pra tirar uma ou duas fotos, e fim. Embarcamos no carro e fomos pra casa. Todos exaustos. WHAT A DAY.

O antes e depois do nosso amigo avestruz.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

MINHA PRIMEIRA SEMANA NA HOPE



Buenas, depois dessas 2 semanas na pediatria, finalmente comecei meu estágio na HOPE. Mas o que é a HOPE? É uma ONG, sediada no Tygerberg Hospital, que tem como objetivo trabalhar com HIV/AIDS e doenças relacionadas, no sentido de oferecer educação, tratamento e todo o suporte necessário para pacientes pediátricos. Apesar de sediada dentro do hospital, o trabalho vai bem mais além. Em resumo, pelo que eu vi até agora: a organização lida (de forma ativa e passiva) com muitas doações (sejam elas de pessoas físicas sejam doações periódicas de supermercados, por exemplo) e as administra e conforme a necessidade - se uma criança é admitida no Hospital e não tem roupas ou brinquedos ou material de higiene, a HOPE vai lá e resolve isso. Se a mãe não tem roupas ou material de higiene pra si, e mora longe demais pra buscar (já que muitas das internações são 'inesperadas'), a organização providencia esses itens pra mãe.
Do ponto de vista técnico, a HOPE participa de muitos rounds clínicos, no intuito de ajudar no manejo dos pacientes com RVD (A sigla significa 'Retroviral disease' e é usada MUITO por aqui - logo mais explico melhor, prometo). 
Pra esse post, vou fazer um breve resumo da minha primeira semana. No próximo post, após completar as 2 semanas na HOPE, comento da visão geral que tive sobre o HIV e todos os aspectos politico-sociais dele.

  • Segunda-feira: 
Conheci a Dr. Jayne (com quem eu já havia trocado diversos e-mails), minha "supervisora" aqui nessas semanas. Ela me explicou tudo sobre a HOPE, me deu uma aula particular sobre o panorama do HIV na África do Sul... foi fascinante! De quebra ainda me emprestou uns livros daqui, pra eu poder revisar o que quisesse. Importante salientar que ela estava muito empolgada comigo, porque ela estava acostumada com os alunos europeus (que praticamente não tem contato com HIV ou tuberculose)... e eu vim do nosso Brasil sil sil e da nossa amada Porto Alegre campeã de TB e HIV, né? Então, cada vez que ela falava de alguma droga sendo 1ª linha ou 2ª linha, eu emendava um "ah é? No Brasil, a gente usa essa como segunda linha" ou "ah, a gente não tem isso"... Resultado: ela me trata de uma forma muito profissional, me elogia pra todo mundo, discute caso de igual pra igual. Ou seja, tá sendo uma experiência incrível! No decorrer da manhã tive a oportunidade de ver vários dos materiais educativos que eles tem pra população, e são bem parecidos com as ferramentas que a gente tem no SUS. Ainda durante a manhã, fizemos um tour por algumas das 'comunidades' em que a HOPE trabalha. Foi MUITO interessante. Nada muito diferente das favelas brasileiras. Coisas interessantes desse tour:
- Numa das comunidades, no "centro comunitário" alguns dos moradores que trabalham com a HOPE estavam separando kits de higiene de avião. Óbvio que perguntei o que era... A história é a seguinte: A HOPE recebe muito apoio $$ de empresas alemãs. A Lufthansa doa os kits de higiene pra HOPE. Na HOPE, os moradores separam o estojinho - pras crianças usarem de estojo na escola! - e as escovas e pastas de dente são doados pras mães que estão com seus filhos internados no hospital. BAM! Isso mesmo, bem no meio da cara e no coração da gente.
- Ao contrário das favelas brasileiras, a maioria das 'casas' é composta por containers ou resto de containers. A comunidade que visitamos é cercada, e é uma "concessão" do governo, que está construindo casas de verdade pra eles. Assim, eles possuem fiação elétrica - mas estão sem luz porque alguns dos próprios moradores insistem em roubar os cabos (BAM!) assim como acontece no nosso país. As "casas" não tem banheiros, mas eles tem uma instalação de banheiro comunitário (um pra cada 40 pessoas, mais ou menos - BAM! de novo).
- Assim como acontece com as favelas brasileiras, a comunidade não quer sair de lá. Um deles me falou que o principal motivo é que eles acham que as casas que o governo construiu não são boas. "A gente viu construindo, as paredes são muito finas". Posto a foto das moradias novas, pra vocês mesmo pensarem se faz algum sentido que seja mais insalubre morar aí ou em containers com banheiro compartilhado com mais 40 vizinhos. E não me venham com discursinhos de esquerda. 


  • Terça-feira:
Meu dia começou com um round no hospital com o departamento de pediatria. Nesse round só são discutidos os casos difíceis, seja do ponto de vista técnico com o HIV (resistência medicamentosa, alguma doença oportunista macabra, etc) seja do ponto de vista social (criança que não tem ninguém que cuide dela, família que não aceita diagnóstico... enfim). Assim como no Brasil, os problemas sociais são sempre a maioria. Após o round, fui acompanhar uma das médicas no ambulatório de... adivinhem, HIV. Eles separam as crianças por idade, então cada dia é uma determinada faixa etária. Uma média de 15-20 pacientes por manhã. Bem tranquilo até. Foi bem interessante ver o manejo e poder discutir coisas bem práticas. E os pacientes que, né, coisamaisquerida.

À tarde, eu e a Dr Jayne fomos encontrar um dos experts em Toxoplasmose aqui. Eles tem um baita laboratório e esse cara está fazendo uma pesquisa bem grande sobre Toxoplasmose, que eles também tem bastante aqui. A Dr Jayne sempre mandava os alunos lá, mas nunca tinha ido. Resolveu ir comigo e acabamos os três tendo uma tarde extremamente enriquecedora sobre Toxo, novamente traçando mil paralelos entre a realidade brasileira e a sul-africana. Confesso que adorei ser tratada de igual pra igual e me surpreendi com o quanto eu sei de toxoplasmose, hehe. Mas enfim, foi muito legal ver os resultados parciais do estudo deles aqui, discutir coisas básicas e raciocinar em conjunto por horas. 
  • Quarta-feira:
Na quarta, fui junto com a residente de Virology pro ambulatório de... HIV! Mas dessa vez, pro de adultos. Nem preciso dizer que foi bem legal, né? Não vou entrar em detalhes porque ninguém lê isso aqui pra saber sobre perebas... mas basta saber que eu aproveitei bastante.

  • Quinta-feira:
Tirei o dia de folga porque tava meio gripada (todo mundo aqui tá pestiado #inverno). Mas juro que li um pouco dos livros que a Jayne me emprestou. Tomando uma taça de vinho, mas li.

  • Sexta-feira:
Esse foi o dia mais legal de todos. Sexta era o dia de ir no ambulatório fora do hospital, que fica num posto de saúde na periferia. Mas bem periferia mesmo. Como eu tô com carro aqui, a Dr Jayne perguntou se eu me importava de ir sozinha até a Delth Clinic, porque é longe e fica bem fora de mão pra ela me pegar no campus. Eu obviamente aceitei a aventura. E foi a coisa mais incrível. 

Podia ser qualquer lugar da periferia em Porto Alegre, né?
Primeiro que eu consegui chegar lá dirigindo sozinha. Segundo, eu parei o carro na entrada do posto e o guarda abriu a cancela pra mim com um "good morning, doctor!", sem eu dizer nada (aqui eles não me confundem com criança!). O ambulatório durou a manhã toda, mas foi sensacional. Muitos pacientes, muitas mães confusas, muita criança ranhenta... aquela coisa toda que só quem vive sabe. Pude ver a primeira consulta de um bebê de 2 semanas pra começar os antiretrovirais, o que foi um aprendizado e tanto. A Dr Sue me colocou pra trabalhar mesmo e eu fiquei zanzando pelo posto diversas vezes, seja pra pegar medicamentos na farmácia (pra ensinar a mãe como usar cada um), seja pra achar alguém que falasse Xhosa (porque inglês e Afrikaaner não é suficiente aqui) e que pudesse ser nossa intérprete com uma das mães. Novamente, diversos problemas sociais no meio do caminho, que impedem que crianças recebam o tratamento adequadamente. Sejam dificuldades na língua, seja não ter dinheiro pra pegar a van e vir no posto pegar a medicação, seja não ter geladeira pra guardar o remédio... tudo isso bate forte na gente. Porque tem se desenvolvido um mundo inteiro de tecnologia sobre o HIV e tem coisas básicas que a gente não tem como resolver.

Uma foto do consultório... a estrutura do posto é bem nova, tudo reformado. Pra traçar um paralelo, é como na Restinga - comunidade carente, mas uma estrutura novinha pra atender uma quantidade enorme de pacientes.
Terminamos as consultas e eu embarquei na aventura de voltar pro campus. Completamente realizada. E por mais bizarro que me pareça, enquanto dirigia no meio da periferia, com uma rádio africana qualquer ao fundo, foi a primeira vez que caiu minha ficha: eu tô na África. Realizando o meu sonho de ver e viver tudo isso.Tenho que confessar que caiu ~umas lagriminhas~ enquanto eu sorria sozinha dentro do carro. 
E nada mais justo do que ter esse insight depois de uma semana dessas, quando podia ter ocorrido no topo de qualquer um desses lugares turísticos. Foi pra isso que eu vim. E não tem coisa melhor do que essa sensação de olhar ao redor e saber que tu não quer estar em nenhum outro lugar no mundo.

Fim da minha primeira semana! Logo mais escrevo sobre a segunda semana e tudo o que eu penso sobre o que vi aqui!

quinta-feira, 23 de julho de 2015

OLD BISCUIT MILL AND A GOOD SATURDAY




No último sábado, resolvemos fazer um programa de meninas: fomos as quatro meninas do nosso lodge tomar café da manhã/brunch num lugar super recomendado aqui - o Old Biscuit Mill e o Neighborgood Market. Ambos esses lugares ficam numa espécie de praça, num bairro chamado Woodstock. A vibe desse lugar é incrível, lembra um pouco aqueles domingos em que a gente vai pra Redenção e tem arte e comida pra todos os lados. 

Acho que o melhor jeito de descrever a sensação do nosso brunch no The Neighborgood Market é "parecia que eu estava protagonizando um daqueles programas do Food Channel". Eram milhares de stands, cada um com coisas mais gostosas que o outro. Eram mil opções de salgados, mil opções de doces, mil opções de cafés, de comida italiana, tailandesa ou culinária africana, alfajores argentinos e wafles belgas. Sabe quando tu fica deprimido com tanta comida, porque sabe que não vai conseguir dar conta de tudo? Foi isso. Parece que não vai ter sábados suficientes pra gente experimentar tudo. O clima era muito família e minha vontade era trazer todo mundo do Brasil pra vivenciar isso comigo! 




Então, pra variar, vamos falar de comida:


Café com uma torta de frango - mas nada de muita massa e pouco frango. Muito pelo contrário.

E a estrela do sábado: waffles belgas - banana com chocolate com mais chocolate e sorvete de baunilha e mais chocolate. Morri. Morremos.
Pois bem. Terminada essa comilança, fomos dar uma volta, olhar a feirinha e as lojas do Old Biscuit Mill. Muita coisa barata, muita coisa linda... E a estrutura é toda nesse clima da foto:

Após passear pelas lojas dali, fomos pro Green Market, que aí sim, parece aqueles camelódromos do litoral. E a palavra de ordem é PECHINCHAR. Nada é o valor que eles dizem. É a metade, ou até menos. No começo, tu te sente meio mal por isso (até porque se tu converte pra reais tudo fica tão ridiculamente barato...), mas depois tu te acostuma e começa até a se divertir com a negociação. Ali é possível comprar um monte de lembrancinhas pra turista - desde roupas, bolsas, artesanato, brincos, até estátuas enormes e quadros lindos. Nisso já se foram mais umas 3h. Não tirei foto de lá, porque tava muito ocupada comprando bugigangas.

Voltamos ao campus, e fomos assistir a um jogo de Rugby - doutorandos versus acadêmicos. Primeiro que tava muito frio. Segundo que wtf rugby. Deu saudade de assistir o Pumpkins e o futebol americano, civilizado! Mas valeu a experiência!

Após isso, fomos jantar no Fat Cactus, pra comemorar o aniversário de uma das gurias do alojamento. Depois disso, parte do pessoal seguiu noite adentro, e eu voltei pro campus porque tava muito cansada sou comportada.

Pra resumir tudo isso:

terça-feira, 21 de julho de 2015

PAEDIATRICS EXPERIENCE

Como já falei em post anteriores, minhas duas primeiras semanas nesse estágio na África do Sul eram na pediatria. Esse post é pra provar que nem tudo é turismo e eu realmente tenho trabalhado aqui, hehe. 
Inicialmente, eu ficaria uma semana na "General Paeds" e outra semana em alguma especialidade pediátrica. Porém, logo que eu cheguei no hospital me deparei com um mundo completamente à parte. Não pelas doenças ou pela estrutura do hospital, mas porque tudo é em inglês. E o inglês da conversa até eu consegui me acostumar, mas GENTE, se vocês acham que os brasileiros escrevem muitas siglas, vocês precisam ver isso aqui. E, pior, as siglas são todas em inglês (obviamente). Então, levou um certo tempo (e uma dose de paciência dos 'local students') pra eu me acostumar e entender as principais siglas. No fim da minha primeira semana, eu estava começaaaando a me sentir ambientada e segura pra assumir algum paciente. Assim, mandei um email pra minha preceptora e perguntei se eu não poderia passar essas duas semanas na pediatria geral - porque obviamente ia aprender muito mais. Como manda o protocolo, enviei um email de trocentas linhas me justificando e pedindo gentilmente pra ficar mais uma semana; e, como todo professor ao redor do mundo, recebi a resposta "ok!" -- adoro. 
Enfim, passei mais uma semana na General Paeds. Minha rotina foi basicamente chegar no hospital às 8h, ver uns pacientes, evoluir, passar no round eeee that's it. Todo dia lá pelas 13h eu já estava de volta no aconchego do nosso alojamento - por isso tantas fotos turistando por aí. 
Como falei em outro post, o hospital da universidade é público. Mas tirem da cabeça o Hospital Santo Antônio ou qualquer outro dos hospitais da Santa Casa. Se quiserem imaginar como é o hospital, pensem no Conceição, mas daqui uns 10 anos, sem reformas, sem investimento. E não, a África do Sul não é um país pobre. Mas não possui investimento suficiente em saúde e tem muita corrupção - lembra algum país? Os europeus que moram comigo ficam muito assustados e deprimidos com a situação do hospital, e toda essa questão política/econômica/social, enquanto eu... tô me sentindo em casa. Valeu dilma!  
Mas, assim como no Brasil, boa vontade é a regra nos profissionais. Todas as paredes da ala da pediatria são pintadas à mão com cenas da Cinderela, Branca de Neve, Pocahontas, Tio Patinhas, a Bela e a Fera, Ben10, tartarugas ninjas e muitos outros desenhos. Muito da mobília dos quartos é antiga/ultrapassada, e dá aquela imagem de "África" que todo mundo tem em mente. Mas tem todo o outro lado. Algo que a gente já ouviu falar sobre os médicos brasileiros no exterior - quando a gente tá acostumado a não ter recurso, nos tornamos excelentes médicos. Aqui os médicos dão um banho de conhecimento. Os europeus falam todo santo dia "meu professor aqui é ótimo, melhor que os da minha universidade", "tem que ver a aula que eu tive hoje no round", "os caras sabem muito". E, sim, sabem. Todos os médicos que eu tive contato até agora sabem tão profundamente os assuntos, dominam e vão do conhecimento básico ao avançado em segundos. E a minha impressão é de que os alunos aqui estudam TANTO. Óbvio que não dá pra falar de todos, mas os que eu conheci, cada segundo livre é um segundo pra estudar - e não um segundo pra tomar um café beber e fazer festa.
Durante essas duas semanas, acompanhei os alunos do 3º ano. Foi uma troca muito interessante: elas me ajudavam com o inglês e as siglas, enquanto eu ajudava com a Medicina - porque essa é universal. Respondi perguntas sobre ausculta pulmonar, bronquiolite, antibioticoterapia, sobre como passar um caso e como palpar um fígado. Aprendi que GAEB significa good air entry bilaterally, que PCR em inglês vira CRP, que B/C é blood culture e que CXR é chest x-ray. Aprendi mais mil siglas e mnemônicos. Vi crupe, pneumonia, bronquiolite, infecção urinária, sepse, meningite. Vi umas crianças lindas. Vi umas crianças com olhos tristes. Vi umas crianças que me apaixonei e fiquei com vontade de levar pra casa - mas fiquem tranquilos que não sequestrei ninguém. Tecnicamente, fui forçada nos rounds a lembrar que antibiótico cobre o quê, que Listeria é um bacilo e quais os valores de glicose e proteína no líquor são indicativos de meningite bacteriana ou viral. Descobri que nossos laboratórios são muito rápidos e eficientes, e que a gente sente saudade do Tasy quando tem que evoluir prontuários à mão. Descobri que os acadêmicos, independente do país, ficam zanzando pelos corredores sem ter o que fazer - até que alguém finalmente libere eles; descobri que rounds intermináveis não são exclusividade brasileira.
Acima de tudo, descobri que o ser humano passa pelos mesmos problemas em qualquer lugar do mundo. E que mães tem os mesmos olhos assustados independente de falarem inglês, português, Afrikaner ou Xhosa. E que a gente não precisa saber nenhuma dessas línguas pra cuidar de alguém. Muitas vezes um sorriso, um aperto de mão, um balão feito de luva ou uma careta são capazes de acalmar mães e filhos.

Pra ilustrar esse post, duas fotos com meu xodó da internação, que todo dia corria pra me dar um abraço e me mostrar os tênis de luzinha. No último dia, passou a manhã toda comigo vendo os pacientes "Doctor, look, I'm a doctor too", "I will see some patients", "this one can go home". Nunca vou me esquecer desses olhinhos brilhantes cada vez que eu emprestava meu estetoscópio e ela saía a auscultar o coração de todas as mães e crianças do quarto.



Todas essas coisas que eu relatei acima fizeram minhas duas semanas muito intensas e me ensinaram muito, sobre Medicina e sobre pessoas.
E vamo que vamo, que temos mais 4 semanas pela frente!

domingo, 19 de julho de 2015

THE AFRICA CAFE

Sabe aqueles lugares que vão no topo de qualquer guia turístico como MUST DO? Com certeza o Africa Cafe é um deles. Localizado no "centro" de Capetown, a começar pela decoração, UAU. 
Queria ter tirado mais fotos, mas preferi absorver somente com os olhos. O Africa Cafe lembra um pouco aqueles casarões antigos da Cidade Baixa (em Porto Alegre/RS), pois acaba sendo um restaurante com vários "cômodos". Ficamos numa sala toda decorada com pinturas egípcias. Todos os pratos e jarras eram coloridos e lindos e cheios de história. O menu? Estava descrito em um pote/lamparina. Nossa janta seria provar tudo que constava no cardápio e depois pedir "refil" de tudo o que a gente quisesse, quantas vezes a gente quisesse. Como vocês já puderam perceber nesses posts todos, IT'S ALL ABOUT FOOD. Esse tem sido nosso lema.


Não consigo lembrar exatamente quantos pratos eram. Mas eram mais de 10, com certeza. E comemos muito, com certeza. E tudo era incrível, com certeza. A ideia desse jantar é que cada prato envolvia um lugar diferente da África. Assim, era possível experimentar um pouquinho da culinária de cada canto desse enorme continente. O resultado? Uma das refeições mais legais que já fiz na vida.
Tirei vários fotos dos pratos no começo, mas acabei me empolgando no "comer" e esqueci de tirar fotos. 
A "entrada" era algo tipo lentilha, com umas tapiocas e uma massinha frita - reparem que essas descrições são bem generalizadas, só pra dar uma noção, sem nenhuma correlação com a realidade.

Após a entrada teve mais ou menos um zilhão de coisas, o que incluía um peixe frito (que até eu achei delicioso!), alguma coisa com cordeiro, um arroz com alguma coisa (muita precisão, eu sei!), um frango bem temperado, e mais um monte de coisa que eu não consigo lembrar - e mesmo que eu quisesse, jamais saberia descrever!

Quando tu já está naquele momento de "deus, por que eu fui comer tanto?" (sendo que nem havíamos chegado na parte de repetir o que a gente quisesse), uma das funcionárias do restaurante chegou pra fazer nossos "face painting" - pinturas lindas nos nossos rostos. Foi uma experiência muito bacana; éramos mais de 20, cada um com uma pintura diferente, uma mais linda que a outra.



A sobremesa - um sorvete de baunilha com um biscoitinho amanteigado e mais umas coisas que eu não faço a menor ideia do que eram - só sei que era bom.

Devo confessar que a sobremesa perdeu um pouco do appeal porque logo após a servirem uma galera entra no nosso cômodo e começa a cantar músicas típicas africanas - de longe a coisa mais legal que eu fiz aqui. Uma energia, uma vibe muito boa, impossível não se emocionar. Tentei fazer um vídeo, mas como não era a prioridade, acabou ficando meio porco. Mas já dá pra ter uma ideia:


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Depois de tudo isso, dessa inundação de cultura, culinária e energia positiva, nem preciso dizer mais nada. Só mais uma foto do pessoal - pra variar.